Ouve-se muito a frase, “idade é só um estado de espírito”, sempre no seu sentido positivo, ou seja, de que o que importa é a idade subjetiva que sentimos ter e não a idade cronológica real.
E, muito francamente, sou grande fã desta ideia. Sou até daquelas pessoas com dificuldade em lembrarem-se da idade que têm. Se me perguntam quantos anos têm, bom, acreditem, tenho de parar e fazer umas contas mentais.
Infelizmente, e como quase tudo na vida, “não há bela sem senão” e este sentimento, que, repito, pode ser extremamente positivo, também tem o seu lado bem negativo, que é a recusa, explícita ou implícita, da “viagem para novo”.
Passo a explicar.
Por muito positivos e otimistas que sejamos, uma coisa é certa, com o passar dos anos as nossas faculdades físicas e intelectuais vão diminuindo. Até há uns anos, isso não era grande problema. Sem reformas para todos e com uma população a viver em grande parte da agricultura de subsistência ou de empregos mal remunerados, as opções resumiam-se a ir trabalhando ou pura e simplesmente “arrumar as botas”.
Ou seja, quem perdia demasiadas faculdades tinha basicamente os dias contados, o apoio familiar nem sempre era grande sobretudo porque a dita família também passava dificuldades.
E, muito francamente, quem começava a ter problemas em aguentar fisicamente o trabalho que lhe era indispensável para viver não vivia, normalmente, o suficiente para sofrer o espetro completo da diminuição de faculdades, físicas ou mentais.
Mais ainda, como para uma boa parte da população não tinha muita atividade mental, também aqui o declínio das suas faculdades não era exatamente um grande problema.
Mas na nossa sociedade atual, em que se vive mais tempo e com empregos que fazem cada vez mais uso do nosso intelecto, tudo isso mudou. E é aí que surgem os problemas.
Sim, muitos dizem, “bom, já não estou nada novo” ou “é o peso da idade” quando notam que já não são capazes de fazer o que antes faziam com toda a facilidade. Mas uma coisa é dizer, outra bem diferente é aceitar plenamente.
Quando o declínio, seja físico ou mental, é muito gradual, o choque não é grande, a pessoa vai-se habituando, mesmo sem dar por isso. O problema é quando se mantêm as faculdades intelectuais, ou físicas, mas sobretudo as mentais, praticamente intactas até uma idade avançada e, de repente, quase literalmente do dia para a noite, há um declínio brusco.
Aí, sim, é muito difícil para essa pessoa aceitar que subitamente já não entende conversas, programas, leituras que apreciava plenamente até à bem pouco tempo. Ou que deixou de conseguir dar o seu passeio diário porque, de repente, lembro, deixou de conseguir caminhar facilmente.
E é aqui que vemos a recusa de apoios que poderiam facilitar imenso a vida dessa pessoa. Como o uso de uma bengala, ideia posta de parte com indignação porque “isso é para velhos”. Ou a recusa de óculos, apesar das dificuldades crescentes de visão. Ou, numa outra área, o não uso de fraldas ou outros acessórios para a incontinência, apesar de poderem melhorar imenso a sua qualidade de vida – diga-se de passagem que nesta área as mulheres aceitam-nos bem melhor do que os homens.
Pior ainda, perante este brusco declínio das suas faculdades, e apesar de dizer repetidas vezes que “é natural, de novo já não tenho nada”, a pessoa em questão envereda, inevitavelmente, por uma depressão mais ou menos profunda e não detetada uma vez que muitos dos seus sintomas são considerados “normais” para a idade.
Mas há uma outra faceta nesta situação. É que não é só essa pessoa a não aceitar bem o que lhe está a acontecer, muitas vezes os que o rodeiam ainda têm mais dificuldade em encarar e aceitar a realidade.
É que custa muito admitir que aquele familiar inteligente, conhecedor, com quem se tinham conversas interessantíssimas é agora uma pessoa com grande dificuldade em entender as coisas mais simples e que tudo esquece e que tudo confunde.
Ou que o parceiro de passeios a pé ou até de jogos precisa agora de ajuda para descer uns simples degraus e que só caminha a passo muito vagaroso e com ajuda externa, seja de uma bengala, andarilho ou outra coisa.
Mais ainda, muitas vezes a pessoa em causa até aceita a sua situação, sobretudo se em jovem conviveu com idosos na mesma situação, mas os que o rodeiam, ou, pelo menos, alguns deles, recusam-se a “ver” o que se passa, ver no verdadeiro sentido da palavra. É que por muitas provas que haja, no fundo sofremos todos de um defeito muito humano e que consiste, muito simplesmente, em só vermos o que queremos ver, ou seja, sofremos todos, em menor ou em maior escala, de cegueira seletiva.
Mas atenção, não sou adepta de entrar no esquema do “sou velho demais para isso”. Sou mesmo ferozmente contra esta atitude. Não há atividades próprias para idosos, todas são boas desde que o estado físico e mental o permita.
Devíamos, sim, almejar a uma avaliação realista do que realmente podemos fazer, sem pessimismos nem otimismos excessivos, e irmos adaptando as nossas atividades ao progresso – recuso-me a chamar-lhe regressão – das nossas capacidades.
É que a idade é mesmo um estado de espírito e aquilo de que somos capazes varia de pessoa para pessoa, não sendo igual, nem sequer parecido, para quem está na mesma faixa etária.
Estou certa de que todos conhecemos “jovens” de 70 anos com mais energia e capacidade física do que muitos de 40 e poucos e muitos também, que se mantêm espertos como tudo e abertos a novos conhecimentos até uma idade bem avançada, ao contrário de muitos adolescentes que mal largam os estudos deixam pura e simplesmente de aprender.
Para a semana: Exercitemo-nos – Algumas sugestões de atividade física mesmo para quem o último exercício que fez foi nas malfadadas aulas de ginástica do liceu...