Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

08 - Comer bem vale a pena

Falarei sobretudo do “só para mim não vale a pena” que afeta fortemente sobretudo a população idosa feminina.

Neste post não irei falar de alimentos necessários a um bom “ir para novo”, dietas ou coisas desse género, mas sim do que acontece a muitos de nós quando os anos já pesam e acabamos a preparar refeições só para uma pessoa.

Mais ainda, destina-se sobretudo a pessoas com alguns rendimentos, o que as retira automaticamente de entrega de refeições e muitos outros apoios, destinados exclusivamente a idosos sem recursos - veja-se o meu post de Luísa Opina: Lamento os idosos com dinheiro (https://luisaopina.blogs.sapo.pt/20-lamento-os-idosos-com-dinheiro-10289).

Uma parte dos problemas que irei referir poderão já não se aplicar a gente mais nova, é que as mentalidades foram mudando. Mas para os de mais idade, criados numa sociedade em que tratar da casa e do marido era “obrigação” da mulher, manter uma alimentação razoável torna-se muitas vezes problemática com o passar dos anos.

E, mais uma ressalva, não me refiro a casos em que problemas físicos ou mentais, Alzheimer, por exemplo, impedem a pessoa de fazer a sua vida. Não, falo de mulheres, sim, sobretudo mulheres que, uma vez sozinhas, passam a andar mal alimentadas e não por falta de meios financeiros.

Enquanto são dois em casa, fazem um esforço para “cumprir o seu dever” e, quer cozinhando, quer indo buscar refeições a um supermercado ou restaurante, vão mantendo um nível adequado de alimentação.

Mas, quando ficam sozinhas, começam a ser atacadas pelo que eu chamo de síndrome do “só para mim, não vale a pena”.

Na zona onde habito, vi muitos casais que comiam regularmente fora (aqui no bairro) ou que iam buscar comida. E, de repente, deixei de os ver, vindo a saber que o marido morrera. Pois bem, quando eventualmente vejo a viúva, não tem um ar nada saudável e, se calha estar numa fila e ouvir conversas, lá vem o “agora quase nem cozinho, só para mim um chazinho e umas bolachas chegam perfeitamente.”

Pois, podem chegar esporadicamente, mas como rotina, nem pensar!

E há outros fatores contributivos. Muitas destas mulheres viveram no pavor dos congelados – e antigamente até tinham razão, a qualidade era fraquíssima – ou ainda veem o micro-ondas como algo para aquecer comida. Ora por muito que se corte nos ingredientes, é bastante difícil cozinhar só para uma pessoa, a menos que esta tenha bom apetite!

Infelizmente, é um círculo vicioso. Quanto menos se cozinha ou se vai buscar comida, menos apetece fazê-lo. Até que nos deparamos com a triste situação de pessoas com uma boa reforma e que estão pior nutridas do que outras com valores mensais miseráveis.

E é uma das áreas em que não se fala de discriminação mas onde ela existe e de que maneira! Senão, vejamos. Se um homem fica viúvo, filhos, netos, a paróquia, vizinhos, todos, enfim, se esforçam para garantir que tem refeições em abundância porque “coitado do homem, sozinho, como é que se vai governar?”

Mas se for uma mulher, bom, aí todos partem do princípio de que não precisa desse tipo de ajuda, uma vez que sabe cozinhar e “governar-se”. E até sabe, o que falta muitas vezes é a vontade de o fazer.

E, muito francamente, para quem gosta de coisas frescas, ou esquece poder ter variedade ou é um desperdício de fruta, saladas, legumes...

Além disso, até concordo que fazer um guisado, um arroz, um assado, só para uma pessoa, bom, dá mais trabalho do que vale.

Pois bem, um dos grandes truques é esquecer o tal “pavor dos congelados”. E para quem vê programas de culinária, até muitos Chefes profissionais recorrem agora a eles.

Por exemplo, para quem gosta de comer vegetais, comprados frescos, uma couve-flor, por exemplo, ou se come várias vezes seguidas, o que, francamente, acaba por enjoar, ou estraga-se. O mesmo para feijão-verde, brócolos e muitas outras coisas. É, pois, uma área em que os congelados “dão cartas”.

Tenho, por exemplo, sempre couve-flor, brócolos, couves-de-bruxelas, cenoura bebé, alho francês e ervilhas congelados, assim, se quero acompanhar algo com legumes, tiro um bocadinho de alguns deles e tenho variedade para a minha refeição.

Outros legumes podem ser facilmente congelados, como aipo, abóbora, curgete... Não faltam vídeos no YouTube a explicar como fazê-lo. Já agora, na minha experiência, batata ou pratos com batata não congelam bem.

Já a fruta, uma solução é fazer uma salada de fruta grandinha, que dê para 3 a 4 dias – coberta com película aderente, aguenta-se lindamente. Assim, já se pode ter uma certa variedade a cada refeição.

Ou, para morangos, por exemplo, que tal um bom batido com leite a servir de jantar? Pode-se até acrescentar gelado ou até mesmo cereais tipo Corn Flakes para uma bebida mais completa.

E caso tenha uma amiga ou vizinha com quem se dá bem, pode também combinar com ela uma compra conjunta, dividindo depois as embalagens (uvas, morangos, saladas...).

Há coisas que compensa largamente fazer (ou comprar) o suficiente para mais de uma refeição. Arroz, por exemplo, é sempre bom ter algum no congelador (pode, até, ser guardado em sacos pequenos de sandes). Já agora, aqueles potezinhos de arroz quase instantâneo são bastante bons, embora eu nunca os use como dizem as instruções: ponho num recipiente com tampa, junto 1 a 2 colheres de sopa de água por embalagem e também temperos, legumes, restos de carne ou de peixe e ponho no micro-ondas pelo menos 3 minutos.

Já agora, um dos meus grandes apoios é um recipiente para cozer a vapor. Não tenho o de bambu mas sim um de duas camadas e tampa, em silicone. E sabem que mais? O arroz aquecido a vapor fica bem fofinho! O mesmo se pode dizer de pataniscas de bacalhau que tenham sobrado.

Se gosta de sopa, não faça nem compre apenas uma variedade, fartar-se-á rapidamente. Se tiver duas ou três, pode separá-las em caixinhas e congelá-las, podendo assim ir alternando.

É claro que há algumas coisas que não resultam muito bem só para uma pessoa. Se comprarmos uma daquelas embalagens de salada já feita, a menos que comamos imenso em dois dias as que contêm agrião ficam logo “meladas”.

A grande questão aqui é evitar o “chazinho e bolachas”, a menos que seja exatamente o que apetece. E o gostar de coisas frescas até pode ajudar, uma ida diária (ou quase) a uma loja para comprar um peixinho ou uma perna de galinha para o almoço até serve de distração e de exercício.

E para criar entusiasmo, que tal ver programas de culinária? São cada vez mais e em muitos deles os apresentadores são amadores. Ou destinar um ou dois dias por semana para cozinhar a sério, dividindo e congelando depois o produto dessa labuta. Assim poderá descansar nos outros e, quem sabe, ao fim de algum tempo talvez veja até esses dias com o entusiasmo de quem vai ter uma quebra na rotina!

Resumindo, os nossos grandes amigos passam a ser o congelador (ou uma geleira com uma boa secção de congelação), o micro-ondas e um dispositivo para cozer / aquecer a vapor. E, acima de tudo, o esforço deliberado para manter uma boa alimentação – não tem de ser abundante, tem, isso sim, de ser variada e com bons elementos nutritivos.

Para a semana: O tempo não é sempre o mesmo –  Há o tempo interno e o tempo externo e raras vezes coincidem...

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