Na minha opinião, é sempre útil ter rotinas, seja qual for a nossa idade. Não me refiro, claro, a programar toda a nossa vida de tal modo que nos limitamos a “viver” em piloto automático a maior parte do tempo. É que, muito francamente, isso nem seria viver.
Mas todos temos no nosso dia-a-dia certas tarefas que podem ser executadas sem pensarmos muito – ou até nada – no que estamos a fazer. Mais ainda, muitas delas mantêm-se pelo menos 5 a 6 dias por semana.
Se, por exemplo, tomamos sempre o mesmo pequeno-almoço, seria uma boa ideia fazê-lo sempre do mesmo modo para que se tornasse uma tarefa rotineira, libertando-nos a mente para outras coisas.
Dentro da criação de rotinas, cabem também coisas como deixar sempre as chaves no mesmo sítio – quantas confusões e correrias seriam evitadas antes de sairmos de manhã, ainda estremunhados! Ou tudo o que rodeia o usual duche. Ou o que fazemos antes de nos deitarmos.
Seria até bom instilar este sistema bem cedo nas crianças, permitindo, assim, dar mais realce ao que varia no dia-a-dia e evitando que gastemos muito tempo e paciência em coisas que não valem nem um nem outro.
Sim, ter rotinas é sempre útil, mas quando se começa a “ir para novo” passam a ter também uma outra função que pode ajudar-nos a adiar o mais possível a depressão que muitos sentem quando se apercebem de que, se calhar, já não são bem o que eram.
Passo a explicar.
Todos nós temos esquecimentos, uns mais do que outros. Quantas vezes saímos a correr e esquecemos aquele documento importante que é a causa da nossa saída. Ou a carteira. Ou fechamos o carro – ou a casa – com as chaves lá dentro. Sim, acontece a todos.
Só que, até uma certa idade, podemos refilar, insultar-nos, levar a coisa a rir, mas não é nada de grave. Acabamos, muitas vezes, até a rir-nos de todo aquele imbróglio e alguns desses casos acabam mesmo por ser as histórias divertidas que adoramos contar a amigos e conhecidos.
O problema é que, com o passar dos anos, começamos a ver esses esquecimentos sob uma outra luz e, infelizmente, é uma luz bem negra.
Em vez de, “esqueci-me disto ou daquilo, acontece” passa a ser, “Esqueci-me, a minha mente já não era o que é” ou “Que horror, como é que me fui esquecer disto? Estou mesmo a ficar velho!”
Perante este cenário, entendem certamente a utilidade de ter rotinas para os procedimentos usuais.
É claro que a nossa vida muda e o que fazemos também, mas a solução é fácil, basta criar novas rotinas. Com a vantagem adicional de que, se estamos habituados a elas, o tempo que leva é até um encadeamento de atos passar a ser uma mera rotina torna-se cada vez menor.
Há ainda a questão de que os esquecimentos não nascem iguais. Deixar papéis em casa ou trancar a casa não têm a mesma importância do que nos esquecermos da medicamentação indispensável para nos mantermos saudáveis. Por isso, mesmo que sejam as únicas que temos, a toma de medicamentos devia tornar-se uma rotina no verdadeiro sentido da palavra.
É que os muitos modelos de caixinhas para a sua colocação por horas e dias só são úteis se nos lembrarmos de as ir buscar. Mas se pegar na medicamentação se tornar parte da rotina de levantar, de pôr a mesa, de deitar, então podemos ter a certeza de que não “acordamos” a meio do dia ou da noite sem saber se foi ou não tomada – e o caso piora se não tivermos as tais caixinhas tirarmos sempre os medicamentos das embalagens e frascos, há o risco muito real de tomarmos uma dose excessiva.
Falei, até agora, dos benefícios de ter rotinas. Mas, como tudo na vida, há sempre o outro lado da moeda. Sim, o seu excesso, como todos os excessos, nada traz de bom. Pode não causar danos visíveis, como, digamos, o excesso de álcool, mas pode provocar problemas psicológicos e, acima de tudo, impedir essa pessoa de apreciar a vida e de viver plenamente.
Irei restringir este tema a pessoas que, já reformadas, criam uma divisão rígida do seu tempo de que se recusam a desviar-se, seja pelo que for.
Acordam sempre no mesmíssimo momento, mesmo sem necessidade de o fazerem, seguem os mesmos passos para se arranjarem, as refeições têm de ser a uma certa hora, ao minuto, há a hora do passeio, também ela cronometrada, a hora de ler, a hora de ver TV, a hora de ir para cama...
E refiro-me a pessoas que não eram assim antes da reforma – é que se é um hábito de longa data e só mudaram algumas atividades, então, bom, “é feitio”, como se costuma dizer, e nada há a fazer.
Só que a maioria dos que agem assim fazem-no pura e simplesmente porque sentem o longo vazio dos dias, agora que já não trabalham – caso não o tenha feito, leia o post Preparar o “ir para novo” (https://irparanovo.blogs.sapo.pt/04-preparar-o-ir-para-novo-2121).
Mais ainda, sentem que perderam parte do controlo do próprio corpo e, pior ainda, da sua vida. E quanto maior é o apoio de que precisam para viverem o seu dia-a-dia, mais rígido se tornam nos seus hábitos, mais as suas rotinas se tornam de “pedra e cal”.
Entende-se, é um sistema de compensação. Mas que os impede, infelizmente, de desfrutarem plenamente da vida ao recusarem tudo o que não se enquadre no seu “esquema”, seja uma convite para uma refeição, um divertimento, uma saída, enfim, algo novo ou pouco habitual.
Em muitos casos, esta rigidez estende-se ao controlo das suas despesas e dinheiro. E não me refiro a quem precisa de o fazer para se aguentar com uma parca reforma, muitos dos que se agarram deste modo têm, até, uma boa reforma ou bons rendimentos. Mas é, mais uma vez, um modo de tentar conseguir um bocadinho de controlo sobre qualquer coisa, nem que isso signifique privarem-se de pequenos prazeres ou de alguns luxos que bem podiam pagar.
Resumindo, criemos rotinas, mas não nos tornemos escravos delas.
Para a semana: Porque envelhecemos? – Sim, porque é que o nosso corpo, atingida a maturidade, não se mantém estável até à morte?