Se é bem verdade que nascer é uma doença fatal, como disse num post de um outro blogue (Luísa Opina), é-o igualmente que viver é envelhecer. Fazemo-lo desde os primeiros segundos de vida, mas, curiosamente, só nos damos conta disso, em geral, quando chegámos à chamada “meia-idade”.
Seria de pensar que com tantos milhares de anos de experiência coletiva já dominássemos bem esta questão... Pois bem, mesmo que o tenhamos feito no passado, as coisas mudaram agora radicalmente e tudo isso de pouco ou nada nos serviria atualmente.
Neste primeiro post irei precisamente analisar o que mudou.
Em primeiro lugar, no mundo inteiro, sim, até mesmo nos países mais pobres, a esperança média de vida aumentou. Para termos uma ideia, em Portugal, em 1960, esse valor era de 60,7 anos para os homens e 66,4 para as mulheres. Ora em 2020, último ano incluído na PORDATA, esses valores tinham passado para 77,7 e 83,4, respetivamente. Ou seja, nunca uma sociedade teve tantas pessoas vivas acima dos 65 anos, idade a partir da qual se convencionou entrarmos na “velhice” – bom, agora já não se usa este termo, passou a ser “terceira idade”.
Mas a diferença não se resume à quantidade. Se pensarmos nos idosos que víamos quando éramos novos, para além de o parecerem claramente, do ponto de vista físico, eram-no, também, muito frequentemente em termos de faculdades mentais. E a sua perda era vista como sendo uma parte integrante do processo de envelhecer.
Comparando-os com muitos dos idosos atuais, e refiro-me a pessoas dos seus 60 a 70 anos, a diferença é na maior parte das vezes abismal. Nota-se sobretudo nas mulheres. A maioria das idosas começava a sofrer curvatura da coluna a partir de uma certa idade, pareciam até que encolhiam. Estranhamente, ninguém pareceu preocupar-se em entender porque é que isso não acontecia com os homens...
Mas hoje em dia, isso já não acontece. E porquê? Pois bem, alimentação! No tempo dos nossos avós – ou pais, dependendo da nossa idade – o leite era visto como alimento de crianças pequenas. A partir de uma certa idade, quase bebés em muitos casos, deixavam de o beber. E manteiga e queijo também não eram muito consumidos, até em zonas de produção onde a sua venda era bem mais importante. Com a menopausa, as mulheres começam a perder cálcio e como já não tinham muito, bom, surgiam todo o tipo de problemas de ossos. Não nos esqueçamos que partir um osso da anca era uma ocorrência frequente e que levava muitas vezes à morte.
Mais ainda, com exceção dos trabalhos de campo ou similares, a atividade física pura nem sequer era vista como uma opção. Havia até a ideia de que “não ficava bem” a uma pessoa de uma certa idade praticar uma atividade desportiva, isso era coisa de novos.
Do ponto de vista das faculdades mentais, as coisas também mudaram e de que maneira! Sabe-se agora que a chamada “senilidade” não é inevitável e que, no mínimo, pode ser adiada por muitos e muitos anos com atividade mental frequente. Há cada vez mais cursos e atividades dedicadas a pessoas que até há bem pouco tempo eram vistas com a precisar apenas de “sopas e descanso”.
Ou seja, tenta-se cada vez mais manter os “idosos” ativos, física e mentalmente, para atrasar o mais possível o aparecer de características que eram consideradas como consequências inevitáveis de envelhecer.
A própria medicina foi forçada a evoluir, agora que tem uma grande base de exemplares, digamos, de pessoas acima dos 60 – e dos 70 e 80 e, nalguns países, até dos 90! E não me refiro apenas à gerontologia. A tensão arterial, colesterol e outros fatores evoluem realmente com a idade e o que seria alto (ou baixo) aos 20 pode ser normal aos 70.
As atitudes perante os idosos também mudaram, para pior e para melhor. Até há umas décadas, as sociedades evoluíam muito lentamente sob todos os aspetos, sobretudo no económico e tecnológico. Os idosos eram, então, um repositório de conhecimentos que podiam muito simplesmente transmitir às gerações seguintes. Ora com o aumento cada vez maior do ritmo de mudanças, esses mesmo idosos passaram a ser vistos como tendo conhecimentos e experiências de vida inúteis para os mais novos, isto quando não eram até considerados como um travão a novos avanços.
Assistimos atualmente a uma nova evolução, ainda muito pouco visível em Portugal, em que, em vez de se deixarem simplesmente ficar pela profissão que sempre desempenharam, pelos conhecimentos adquiridos em jovens, muitos idosos estão a reinventar-se, arranjam novas atividades profissionais depois de se reformarem, muitas vezes em área radicalmente diferentes, continuam a aprender e a estudar, enfim, não se deixam simplesmente ficar à espera da morte.
E como, repito, as suas capacidades físicas e mentais são bem melhores, isso não é um esforço tão duro como o seria há alguns anos.
A atitude das pessoas perante o seu próprio envelhecimento também tem estado a mudar. Penso que todos conhecemos pessoas como 80 ou mais anos que dizem desde os 60 e poucos, que “não vale a pena” fazer isto ou aquilo com o grande argumento de “para aquilo que ainda vou viver...” Ou seja, passaram duas décadas ou mais a recusarem atividades, aprendizagens, simples prazeres, até, porque a morte estava iminente.
Contraste-se isso com a atitude atual de muitas pessoas dos mesmo 60 e tais que nem se consideram velhas, são simplesmente pessoas, como sempre o foram. Muitas têm até de pensar um momento se lhes perguntam a idade, não a veem como a sua característica principal. Sim, para elas, a idade é muito simplesmente um número e não algo que as define.
Como estamos num período de transição e, além disso, muitos de nós que já “estamos a ir para novos” temos a nosso cargo, direta ou indiretamente, familiares ou amigos com a atitude clássica perante a velhice, dedicarei este blogue a um misto de textos para quem vai a caminho e para quem já lá está.
E lembrem-se, nesta área do envelhecimento, a nossa geração, a que tem agora entre 60 e 70, é pioneira!
Para a semana: Como os idosos se veem – O modo como são vistos e o modo como se veem são, frequentemente, radicalmente opostos.