Como a tal gripe que mencionei durou imenso tempo, decidi alterar de novo o tema da semana uma vez que o proposto implicaria bastante pesquisa nova para que não tive tempo nem disposição.
Pequeno detalhe, não irei falar da longevidade crescente nem dos cada vez mais numerosos longevos em termos de catástrofe, económica e não só, quem me lê sabe que não alinho no ranger de dentes e torcer de mãos com que se fala quase sempre do tão famoso envelhecimento da população.
De um modo geral, as pessoas sonham viver até uma idade avançada. Mas viver, não sobreviver – ou seja, em plena forma física e sobretudo mental. E, claro, não faltam conselhos – infelizmente muitas vezes sob a forma de proibições – e todo o tipo de “mezinhas”. Uma das tendências mais recentes, pelo menos no nosso país (noutros já existe há uns bons anos) é o “rejuvenescimento”. Ou seja, algo que faria o nosso relógio biológico voltar para trás, pelo menos alguns aninhos.
E não faltam clínicas e tratamentos que têm, pelo menos, um elemento em comum: são caríssimos. É claro que os seus proponentes juram que resultam e há quem os faça e concorde. Mas... será esse o caminho ideal para muitos de nós, independentemente da parte financeira?
Falando por mim, não anseio mesmo nada rejuvenescer, quero, isso sim, ter a melhor forma possível para a minha idade e aproveitá-la o mais possível. Aliás, graças a alguns cuidados com a minha alimentação e, sobretudo, atividade física, posso dizer que estou bem melhor agora, fisicamente falando, do que nos últimos anos – décadas, até.
Há a parte mental, claro, nunca estamos livres de sermos alvo de uma doença degenerativa tipo Alzheimer, mas sabem que mais? Os tais tratamentos que mencionei não nos protegem delas. E, como já tenho referido em vários posts, devemos exercitar a mente como um músculo, mantê-la ativa, com a vantagem de que há estudos que provam que fazê-lo atrasa o desenvolvimento das ditas doenças.
Ou seja, em vez de suspirar pelos nossos 30, 40, 50 anos, não será bem melhor (e prático) fazer dos nossos 60, 70, etc., o melhor que podem ser? E não, não é utopia, já repararam que em alguns países famosos pela longevidade da sua população os respetivos longevos têm muitas vezes mais energia e capacidade física do que gente com metade da idade de outros países?
Por exemplo, quando fui ao México, vi em Teotihiuacán uma senhora japonesa de 80 e tal anos a descer a Pirâmide principal com uma velocidade que deixou embasbacados os muitos jovens ali presentes. É claro que se começarmos cedo a manter uma boa forma física (e mental) melhor será, mas nunca é tarde para começar. Lembre-se, apenas, que nunca é boa ideia passar dos 0 aos 100, ou seja, se é sedentário há anos, comece devagar a exercitar-se e, acima de tudo, escute o seu corpo, não o force só porque está com pressa de chegar a um certo nível, o efeito será o oposto.
Há um outro aspeto da longevidade que ainda é raro por cá mas que já abunda noutros países. Basicamente, havia a ideia de que os longevos – ou seja, os idosos, na linguagem usual – constituíam um setor uniforme do mercado. Anunciavam-se, pois, produtos para uma certa idade, distrações, atividades, etc – por exemplo, passeios para idosos.
O aumento do número de longevos veio alterar tudo isto. Ou seja, muitas empresas descobriram, entretanto, que muito longe de serem um grupo coeso são, até um dos mais diversificados. Se falamos em produtos / atividades para jovens, haverá, claro, exceções, mas servirão os gostos da maioria – quanto mais não seja pela pressão social que é ferocíssima nessas faixas etárias.
Mas muitos longevos acham que, devido aos muitos anos vividos, ganharam o direito de pensar por si e de fazer o que gostam, não o que os outros, sim, os célebres outros, acham ser adequado à sua idade. E temos os sedentários, os ativos, os que querem experimentar tudo o que ainda não fizeram, os que só querem “sopa e descanso”, enfim, uma tremenda pluralidade de mercados.
Mesmo em termos de turismo, muitos já não referem apenas a idade, indicam também o tipo de pessoa a quem se destina. Se forem à Internet, verão que há inúmeros grupos para viajantes com mais de 60, 70, 80, mas a idade não é o fator crucial – são para viagens de comboio, para quem viaja sozinho já longevo, para quem gosta de férias ativas, enfim, um imenso leque à nossa disposição.
Ou seja, muitas vezes a gama etária só é indicada para o caso de a pessoa alvo não se sentir muito à vontade rodeada de gente mais nova, até pelo receio de os atrasar. Por exemplo, quando escolho uma viagem que sei que inclui algumas caminhadas, informo-me sempre do tipo de grupo em que serei incluída, prefiro, claro, não ir com jovens cheios de garra que teriam de esperar por mim...
Em termos de estudos e cursos vemos o mesmo, a oferta é cada vez mais variada e tenta cobrir o máximo de áreas existentes, das mais teorias às mais práticas. Podemos mesmo dizer que há quase tudo para todos os gostos.
E faz todo o sentido, muitos só podem dedicar-se a passatempos ou distrações depois de se reformarem. Ou, o que é cada vez mais frequente, experimentar coisas novas – recordo o êxito que foi a aula de introdução ao Surf para mais de 65 anos que se realizou o ano passado em Carcavelos.
Muito francamente, já é mais do que altura de sermos tratados como pessoas com toda a diversidade de que a humanidade é capaz e não como os “velhinhos, coitadinhos”, a “caixa” em que muitos ainda insistem em enfiar-nos. E isso aplica-se também a nós, chega de suspirar pelo passado ou de querer fazer o tempo andar para trás, tentemos, isso sim, tornar a nossa idade atual o melhor que pode ser.